Saúde

Autismo: da compreensão à inclusão – Por Andreia Marques

Já imaginou como seria perceber cores de forma mais intensa que os outros, ou sentir-se sobrecarregado por sons que a maioria das pessoas nem nota? Para muitas pessoas com a Perturbação do Espectro do Autismo esta é a realidade diária.

Neste dia 2 de abril, celebra-se o Dia Mundial da Consciencialização sobre o Autismo, uma data que representa um convite à reflexão sobre como construir uma sociedade verdadeiramente inclusiva.

A Perturbação do Espectro do Autismo (PEA), afeta a forma como uma pessoa percebe e interage com o mundo, influenciando a comunicação, as interações sociais e os comportamentos. O termo “espectro” significa que cada pessoa autista apresenta uma combinação única de características e necessidades.

Para Além dos Sinais Evidentes
O autismo é associado principalmente a comportamentos repetitivos evidentes ou dificuldades claras de socialização e comunicação. No entanto, existem sinais mais subtis que frequentemente passam despercebidos:
– Diferenças no processamento sensorial: dificuldade a lidar com estímulos como luz, som, toque ou texturas – o que pode causar desconforto em vários ambientes.
– Dificuldades na compreensão de linguagem não-literal: Desafios para compreender metáforas, ironias ou subentendidos sociais que não são explicitamente comunicados.
– Necessidade de previsibilidade: A ansiedade face a situações novas ou inesperadas não ‘teimosia’, mas sim uma necessidade neurológica de previsibilidade e estrutura.
– Interesses específicos: O que muitas vezes é rotulado como ‘obsessão’; representa, na verdade, uma forma de processar e encontrar sentido no mundo.

A Importância da Intervenção Precoce e das Terapias Especializadas
Um dos maiores avanços na abordagem ao autismo nas últimas décadas tem sido o reconhecimento da importância da intervenção precoce. Quanto mais cedo se iniciar a intervenção, maiores serão as possibilidades de desenvolver competências fundamentais em períodos críticos do desenvolvimento neurológico.
Uma intervenção multidisciplinar, incluindo a Terapia da Fala, Terapia Ocupacional, Terapia Comportamental e Apoio Psicológico, é fundamental para o desenvolvimento das competências de comunicação, sociais, emocionais e comportamentais. O progresso terapêutico não se mede pela quantidade de sessões, mas
pela sua qualidade e personalização, privilegiando contextos naturais de aprendizagem.

O envolvimento ativo da família fornece o suporte emocional estável necessário, enquanto a utilização dos interesses específicos da criança serve como ponte motivacional para o seu desenvolvimento. É esta colaboração entre profissionais e famílias, com intervenções adaptadas às necessidades individuais, que verdadeiramente
potencia o desenvolvimento adequado.

Inclusão: um desafio coletivo
A inclusão de crianças neurodivergentes é crucial para garantir que todas, independentemente das suas diferenças, tenham a oportunidade de crescer, aprender e se desenvolver plenamente. A escola, a família e a comunidade têm um papel fundamental na criação de um ambiente acolhedor e adaptado às necessidades individuais das crianças autistas. A inclusão vai além da simples presença; ela envolve a adaptação dos espaços, das metodologias de ensino e a promoção de interações sociais positivas.

No contexto escolar, onde a criança passa a maior parte do tempo, é essencial que todos estejam preparados para lidar com as especificidades das PEA. Isso inclui o conhecimento de estratégias de ensino individualizadas, a criação de ambientes tranquilos e previsíveis, bem como a promoção de habilidades sociais e comunicativas.

A colaboração entre escolas, terapeutas e famílias é, portanto, fundamental para garantir o sucesso da inclusão.

Da Escola à Vida Adulta: Um Caminho Ainda em Construção
A maioria das discussões sobre autismo centra-se na infância e no ambiente escolar, como se o autismo terminasse com o fim da escolaridade. No entanto, os desafios da transição para a vida adulta são igualmente significativos: acesso ao ensino superior, inserção no mercado de trabalho, relações românticas, vida independente.

Estas transições requerem suportes específicos que muitas vezes não estão disponíveis quando o jovem deixa o sistema educativo. Esta lacuna representa um dos maiores desafios para a inclusão das pessoas autistas na sociedade.

Trabalhando diretamente com estabelecimentos de ensino no concelho, é possível verificar uma maior estruturação e organização para a promoção da inclusão.

No entanto, ainda há um longo caminho a percorrer. Os recursos continuam insuficientes e a formação específica dos profissionais nem sempre está ao nível das necessidades. A transição para a vida adulta, em particular, carece de um planeamento estratégico a nível municipal que facilite a inclusão laboral e a vida independente.

A Consciencialização e o Papel da Comunidade
O Dia Mundial da Consciencialização sobre o Autismo não é apenas uma data comemorativa, mas uma  oportunidade para relembrar que a verdadeira inclusão requer um esforço contínuo e coletivo. A consciencialização não ajuda apenas a desmistificar o autismo, mas contribui também para a redução de estigmas e preconceitos, permitindo uma maior aceitação e compreensão.

A consciencialização começa com o acesso à informação, mas só se completa com ações concretas e sustentadas. Esta transformação depende de cada cidadão. É fundamental que, como sociedade, adotemos uma postura empática e informada, aprendendo a valorizar as diferenças e a respeitar as necessidades individuais.

Esta consciencialização é também fundamental para que mais recursos sejam disponibilizados, tanto em termos de apoio especializado, quanto em políticas públicas que garantam a igualdade de oportunidades para as crianças autistas e suas famílias.

Apesar de hoje se assinalar o Dia Mundial da Consciencialização sobre o Autismo, não limite a sua ação a esta data – faça da inclusão um compromisso diário.

 

 

Andreia Marques, terapeuta da fala e analista comportamental

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